Clipping de Relações Internacionais

‘O Chile mudou e ficou mais exigente’, diz Bachelet

Posted in Américas, Sistemas Políticos by Emilia C. de Paula on 17/09/2013

Chile – BBC – 17/09/13.

Michelle Bachelet não queria ser candidata. Mas a dois meses das eleições presidenciais, previstas para ocorrer no dia 17 de novembro no Chile, as pesquisas de intenção de voto indicam que a ex-presidente tem grandes chances de voltar ao palácio presidencial de La Moneda.

Bachelet, que deixou o governo, em 2010, com 84% de popularidade, ainda possui amplo apoio popular, especialmente entre os setores mais pobres da população e da classe média.

Por isso sua coalizão de centro-esquerda, a Nova Maioria, tenta tirar o máximo de proveito da agenda da candidata. Vale todo tipo de evento, desde encontros folclóricos até atos religiosos, talvez com a intenção de levar a eleição já no primeiro turno.

Entretanto, Bachelet, prestes a complementar 62 anos, sabe que não pode mais se apresentar como uma novidade política, tal qual em sua primeira campanha.

O país que escolherá um novo chefe de Estado e um novo Parlamento no dia 17 de novembro já tem a experiência de uma mulher na Presidência.

O Chile conhece bem Bachelet e ela sabe que, se ganhar, os chilenos exigirão ainda mais de seu governo. Começa então agora o desafio real para a ex-presidente?

Em entrevista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, ela afirma que seu período à frente da Presidência “não foi uma lua de mel” e que “hoje em dia há uma situação distinta, um país distinto”.

“Agora vem uma segunda fase… O país mudou nestes quatro anos, as pessoas sabem muito melhor o que querem e o que não querem, é um país mais exigente, tem grandes expectativas e é mais consciente de seus direitos”, diz Bachelet.

De fato, basta olhar as notícias locais para se dar conta de que a sociedade chilena já não tem medo de protestar: os protestos estudantis continuam, assim como as manifestações contra grandes projetos de mineração e em defesa dos direitos dos indígenas.

Tempo de reformas

É em meio a este clima de demandas populares que a candidata da esquerda diz entender a desconfiança de setores como o estudantil, que a critica por supostamente não ter trabalhado de forma mais dura e rápida por um sistema educacional público, gratuito e de qualidade.

Ou de grupos de esquerda que lembram que, apesar de ter concebido vários programas de proteção social durante seu mandato, a líder socialista não abandonou o modelo econômico neoliberal chileno, em grande parte herança da ditadura de Augusto Pinochet.

Por isso, ela se apresenta com um pacote de reformas – da educação, constitucional e tributária – e com o empenho de que o mandatário não pode sozinho mudar o país sem o apoio legislativo, em alusão à falta de respaldo parlamentar entre 2006 e 2010.

A BBC Mundo entrevistou Bachelet na reta final de sua campanha sobre uma série de temas. Confira:

BBC Mundo: Entre as decisões que tomou como presidente, a senhora se arrepende de alguma?

Bachelet: Não há nenhuma de que tenha me arrependido, mas se há algo que talvez teria feito diferente se soubesse o que iria acontecer é o Transantiago (sistema de transporte coletivo na capital do país).

Coloquei o sistema para funcionar porque havia recebido garantias de que iria funcionar muito bem e isso não aconteceu.

A ideia era muito boa, mas sua implementação mostrou uma série de deficiências.

Isso me ensinou uma lição muito importante: a de que o projeto foi feito por pessoas muito inteligentes, mas que pensaram no sistema e não nas pessoas. A grande lição é sempre pôr as pessoas no centro das políticas. Foi um duro e grande aprendizado.

BBC Mundo: Por que agora está prometendo uma reforma da educação que quando presidente a senhora não realizou?

Bachelet: Não fizemos porque não pudemos. Enviei dois projetos de lei, um em 2007 e outro em 2008, que não prosperaram no Congresso. Não basta a vontade de uma presidente.

Além disso, acredito que hoje em dia haja uma consciência de que uma reforma da educação de qualidade é insdispensável no Chile, uma consciência que a maioria da população não tinha.

Em parte, isso se deve aos próprios estudantes, que saíram às ruas durante quase um ano, angariando o apoio de muita gente.

Isso não quer dizer que quando nós mandarmos o projeto de lei não haverá qualquer controvérsia. Mas voltei a ser candidata no Chile para fazer coisas que acredito ser imprescindíveis.

Eu entendo a desconfiança inicial. Mas acredito que a confiança seja construída quando as pessoas percebem que há vontade, decisão. Espero também que esses mesmos estudantes que desconfiem votem em parlamentares que de verdade vão apoiar esse tipo de iniciativas.

BBC Mundo: Pesa contra a senhora a crítica de ter usado a lei antiterrorista para criminalizar os protestos de povos nativos. A senhora se arrepende de ter recorrido a essa lei? Como agiria se ganhasse novamente as eleições?

Bachelet: Levamos a cabo um conjunto de iniciativas que melhoraram a vida de muitos deles. Agora, temos dívidas históricas pendentes, todos os governos têm.

Em relação ao tema da violência, tem havido casos dramáticos contra o povo mapuche e, lamentavelmente, mortes, que são inaceitáveis, dos povos originários desses lugares.

Em um Estado de Direito há que se garantir a possibilidade de uma convivência pacífica e que a lei seja cumprida.

Acredito que foi um erro tê-la aplicado (a lei antiterrorista) e acho que isso não pode voltar a acontecer em nosso país.

No entanto, quero destacar que mandei um projeto de lei para alterar a lei antiterrorista e novamente não foi aprovada no Parlamento. Não basta apenas a vontade de um governante.

BBC Mundo: Pela primeira vez na história do Chile, duas mulheres são candidatas à presidência pelas principais coalizões de partidos (a terceira, Roxana Meneses, concorre à vaga pelo Partido Igualdade, mas está nos últimos lugares na pesquisa). Como mulher, a senhora percebeu alguma mudança no tratamento por parte de outros políticos em relação à sua primeira candidatura?

Bachelet: O mundo da política ainda é machista. Lembro-me de uma história que me aconteceu na época em que ainda era ministra (antes de ser presidente, ela foi ministra da Defesa e da Saúde). Recebi um convite para um ato pela independência do país que dizia “Senhora ministro e esposa”. O protocolo ainda não havia incorporado o gênero feminino.

Tem havido uma evolução cultural importante, mas é algo que ainda precisa continuar avançando. E é no âmbito da participação política das mulheres que estamos mais atrasados.

Mas diria que hoje não há nenhuma discriminação como candidata.

BBC Mundo: Qual é a sua opinião sobre sua rival (a candidata de direita Evelyn Matthei), que esteve tão próxima de sua família durante sua infância?

Bachelet: Ela era irmã mais nova de um amigo. Eu a conheço, sim, mas não tão intimamente, não brincávamos juntas ou íamos juntas à escola, por exemplo.

Meu pai era muito amigo do pai dela; estivemos juntas em Antofagasta, no norte do Chile. Só a reencontrei mais velha, quando decidimos seguir caminhos diferentes na política. Ela na direita, e eu na esquerda.

A relação era normal entre uma ministra e uma parlamentar.

Claro, há uma parte da história que é comum, mas a grande parte é distinta: meu pai morreu torturado na prisão enquanto o pai dela acaba se tornando parte do governo durante a ditadura. São histórias distintas e também temos entendimentos diferentes sobre a economia e muitos outros assuntos.

Como sempre, tenho muito respeito por ela, assim como pelos demais candidatos.

BBC Mundo: O mundo está de olho no Chile pelo seu forte ritmo de crescimento (em torno de 4% por ano), mas a desigualdade é ainda um dos principais desafios da economia. O que a senhora pensa fazer para combatê-la se ganhar as eleições?

Bachelet: Há duas coisas que temos de fazer. Primeiro, manter o crescimento da economia, pois sem ele não podemos diminuir a desigualdade.

Em segundo lugar, nossa agenda deve estar centrada na produtividade, energia e diversificação da economia. Não podemos continuar dependendo das matérias-primas. Temos de contar com um valor agregado dos nossos produtos.

Mas para combater a desigualdade contamos com a reforma da educação, programas sociais, estímulo a pequenas e médias empresas e uma política trabalhista que combata a grande brecha existente entre os salários mais altos e os mais baixos.

A desigualdade está no mercado de trabalho. Temos que aperfeiçoá-lo, por meio de melhores relações de trabalho, fortalecendo a capacidade de negociação dos sindicatos.

Disponível em:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/09/130917_entrevista_michelle_bachelet_chile_bbc_mundo_lgb.shtml

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