Clipping de Relações Internacionais

Estudo chinês contesta governo e diz que desigualdade é maior

Posted in Ásia & Oceania, Social & Questões Culturais by Emilia C. de Paula on 05/08/2013

China – BBC – 01/08/13.

Concentração de renda varia segundo regiões do país. Regiões costeiras, como Xangai, são mais favorecidas

Concentração de renda varia segundo regiões do país. Regiões costeiras, como Xangai, são mais favorecidas

Um estudo feito pelo Centro de Estudos de Planejamento Familiar da Universidade de Pequim revela que a sociedade chinesa está mais desigual, ao contrário do que as estatísticas oficiais divulgam.

Segundo a pesquisa, os 5% mais ricos do país detêm 23% da riqueza nacional, ao passo que os 5% mais pobres contam com apenas 0,1% de toda a renda.

O estudo atribuiu à China um coeficiente de Gini de 0,49, aproximando-o ao de países onde há grandes índices de desigualdade, como os da África Subsaariana e da América Latina.

O coeficiente de Gini mede o grau de desigualdade na distribuição da renda familiar per capita e vai de zero a um. Quanto mais perto zero, menos desigual o país é.

Segundo o Banco Mundial, o Brasil tem coeficiente de Gini de 0,51. A Eslovênia, país com a menor desigualdade social do mundo, tem um coeficiente Gini de 0,24, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O indicador conferido pelo estudo à China (0,49) é pior do que o divulgado em janeiro pelo Birô Nacional de Estatísticas chinês (0,47).

Esfriamento da economia

No que toca a renda da população, o levantamento mostrou que, em cidades costeiras, como a megalópole Xangai, a renda média anual foi de US$ 4,1 mil, enquanto em regiões mais pobres, como a província de Gansu, no noroeste da China, não chegou aos US$ 2 mil. Para áreas rurais, os rendimentos caem mais ainda: US$ 1,6 mil.

Os resultados da pesquisa aparecem em um momento de tensão acerca do esfriamento da economia chinesa. Economistas estão mais pessimistas em relação ao poder do crescimento chinês, e os mais céticos estimam que o país deverá avançar apenas entre 3% e 4% em 2013, uma queda acentuada em relação aos 7,8% de 2012.

“A chave para resolver o problema seria reequilibrar o modelo econômico para que se concentre mais no consumo interno do que nas exportações”, afirma à BBC Brasil Michael Pettis, especialista em mercado financeiro chinês e professor da Universidade de Pequim.

Entre as razões para a desigualdade social, a mais provável é a reforma econômica de 1979, a mesma que acabou levando a China ao segundo lugar na lista das maiores economias do mundo.

Ancorado nas exportações, o modelo econômico conseguiu retirar 30% da população de Pequim de uma situação de miséria absoluta entre 1981 e 2010, gerando emprego em massa na chamadas “indústrias baratas”, que produzem para os mercados têxtil, atacadista e de plásticos.

Mas são os 25% do topo da pirâmide social, muitos deles ligados ao governo e estatais, que hoje detêm 59% da riqueza nacional e seguem vendo suas fortunas crescerem.

Foi essa lógica econômica, criada por Deng Xiaoping, que possibilitou à China um crescimento médio do PIB de 9,7% entre 2005 e o ano passado.

Ainda que previsões otimistas sigam acreditando na fórmula de Deng e em um crescimento médio anual de 7%, economistas mais céticos, como Pettis, calculam que os avanços da economia não devem passar dos 4%.

“Para que o PIB aumente em tal velocidade (7%), precisamos que o consumo cresça 11% acima do PIB, o que não parece possível”, opina o economista.

“Assim, ou precisamos dar mais dinheiro aos ricos para que eles gastem pelos pobres, aumentando assim a diferença social já alarmante, ou o governo aparece com uma medida extraordinária que garanta que a renda dos mais pobres suba em 6%”, acrescenta.

Clique Leia mais: Como a desaceleração chinesa afeta a economia global

Desconfiados

Os resultados mais pessimistas do estudo da Universidade de Pequim em comparação com as estatísticas oficiais não ficam só no coeficiente de Gini.

Dados do Ministério dos Recursos Humanos e Seguridade Social da China afirmam que a taxa de desemprego se manteve em 4,1%, o mesmo índice de 2012. Já o recente estudo aponta que os desempregados chineses somam 4,4%.

Para o chefe do estudo, o professor Xie Yu, apesar de apontar um índice de desemprego maior do que as estatísticas oficiais, a pesquisa avalia que o cenário não é tão alarmante como na Europa.

“Na China tivemos o acréscimo dos salários nas indústrias, o que é um sinal de que a situação não é crítica”, afirma Yu.

Economia mundial

O estudo pondera que, se comparada à realidade econômica mundial, a China está em uma posição vantajosa, com um crescimento de 7,5% no segundo trimestre deste ano ─ 0,3% abaixo do mesmo período do ano anterior.

E ainda que as previsões indiquem um ano mais pobre para a China, Pettis aponta que o PIB chinês têm um papel importante no crescimento global.

“Se a China conseguir diminuir seu superavit e ao mesmo tempo aumentar a renda das famílias de classe média e baixa em 6%, o país continuará exercendo seu papel como a mais potente variável aritmética na equação do crescimento global”, explica, ponderando que a China “não é o motor” da economia mundial.

“É o fator mais forte da equação, mas não é o motivo do crescimento global”.

A fim de que Pequim permaneça vivendo seu “sonho chinês” dentro de uma sociedade harmônica, o equilíbrio econômico nacional terá de se voltar, segundo Pettis, ao poder de compra do mercado interno, o que pode ser uma difícil tarefa em momentos de crise econômica mundial.

“Nem mesmo quando Estados Unidos e Europa estavam em boas condições econômicas a China conseguiu manter o crescimento do seu consumo alto o suficiente para garantir o avanço da sua economia. Por isso é muito difícil pensar que agora, em períodos de retrocesso, Pequim consiga fazer o mesmo para manter o crescimento registrado no ano passado”, alerta.

Disponível em:

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130731_china_desigual_fm.shtml

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