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Como a escassez de alimentos está dividindo os venezuelanos

Posted in Américas, Economia, Comércio & Finanças, Social & Questões Culturais by Emilia C. de Paula on 17/05/2013

Venezuela – BBC – 16/06/13.

Uma cena em um supermercado estatal em Caracas dá o tom da atual crise de abastecimento vivida pela Venezuela: uma mulher sai de dentro da loja e, olhando para a fila de mais de 30 pessoas, exclama “tem leite!”, arrancando sorrisos de alívio e satisfação de seus compatriotas.

O leite é um dos produtos que não são facilmente encontrados no país. Outros itens da lista são papel higiênico, açúcar, óleo de cozinha e a farinha de milho usada para fazer arepas, o prato nacional venezuelano.

De acordo com o Banco Central da Venezuela, o índice de escassez, que mede a falta de produtos no mercado, chegou a 21% no mês passado, o maior desde quando o indicador começou a ser utilizado, em 2009.

Isto significa que dentre cem produtos, 21 não estão disponíveis nas prateleiras dos supermercados do país.

Subsídios

Quando itens básicos como o leite entram na lista dos produtos em falta, as filas dentro e fora dos supermercadosse tornam mais longas, mas os consumidores de mercados como o Mercal, controlados pelo governo, não parecem se importar.

“Sempre há filas, mas precisamos ter paciência”, diz Raul Espana, aposentado de 63 anos.

Economizar com comida é crucial para ele, que divide com a mulher uma aposentadoria de 2.500 bolívares por mês (cerca de R$ 758). “Antes, não conseguíamos manter uma dieta completa. Agora, podemos comprar de tudo.”

O supermercado Mercal é parte de um sistema controlado pelo governo que dá acesso a alimentos e itens básicos subsidiados por meio de uma rede de lojas ao redor de todo o país.

Um quilo de macarrão, por exemplo, custa 2 bolívares (R$ 0,61), dez vezes menos do que em supermercados privados.

O ex-presidente venezuelano Hugo Chávez criou o sistema de subsídios em 2003, depois que a oposição organizou uma greve no setor petrolífero que quase paralisou o país.

A maioria das lojas da rede Mercal está localizada em bairros pobres da capital venezuelana, e muitos apontam o sistema como uma das políticas de Chávez responsáveis por melhorar a vida da população.

Abastecimento

Antes de sua chegada ao poder, em 1999, mais de 15% dos venezuelanos estavam subnutridos. Agora, essa taxa passou para menos de 5%, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

A entidade inclui a Venezuela entre os países mais bem-sucedidos no combate à erradicação da fome. No entanto, críticos dizem que a situação atual é um indicador de má gestão econômica.

Em Altamira, bairro de classe média alta de Caracas, moradores reclamam da maratona para comprar alimentos.

“Agora tenho que passar por cinco ou seis supermercados para comprar o que preciso”, diz o contador Gerardo Araujo.

Araujo também culpa o governo pelo aumento da inflação, que atingiu 29,4% em abril, enquanto os preços dos alimentos subiu 6,4%, de acordo com os últimos dados divulgados pelo governo.

“Cada dia meu salário vale menos e perco capacidade de compra”, afirma.

Economistas ligados à oposição dizem que o controle cambial, a falta de produtividade no setor alimentício e a dependências das importações explicam a alta dos preços.

O governo, no entanto, nega a explicação. Após vencer as eleições presidenciais em abril por uma margem estreita de votos, o presidente Nicolás Maduro disse que a escassez é o resultado de uma “guerra econômica” iniciada por “conspiradores da oposição” e pelas “classes acomodadas”.

No início deste mês, durante sua primeira viagem oficial como novo presidente, Maduro afirmou que um dos principais objetivos do tour por Argentina, Brasil e Uruguai é garantir o suprimento de alimentos no país pelos próximos três meses.

Na Argentina, Maduro assinou 12 acordos bilaterais, trocando petróleo por produtos como carne e trigo.

Arma eleitoral

A escassez na Venezuela não é algo novo. Durante os 14 anos do governo de Chávez, a disponibilidade de alimentos e outros bens teve flutuações constantes.

A maioria dos analistas considera que a comida se transformou em uma arma eleitoral em abril e que, por conta disso, muitos dos que antes votaram em Chávez, desta vez deram seu voto à oposição.

O líder da oposição, Henrique Capriles, derrotado na eleição, diz que a Venezuela precisa de um novo modelo antes que ocorra um colapso econômico.

“Nós temos terras suficientes para transformar a Venezuela em um país produtor de alimentos. O petróleo precisa ser uma alavanca para o desenvolvimento. Nós temos 30 milhões de hectares de terras férteis. Nós estamos importando peixe… e olha o tamanho da nossa costa!”, disse Capriles à BBC Mundo durante a apuração dos votos das últimas eleições.

No início de seu governo, Chávez prometeu transformar a Venezuela em um país autosuficiente, que poderia chegar a exportar comida. Quatorze anos depois, no entanto, o país ainda importa 70% dos alimentos que consome.

No bairro 23 de Enero, um bastião do chavismo em Caracas, também se percebe uma diminuição da confiança no governo.

“É preciso ficar procurando para encontrar o que se precisa”, diz Vicenta Martínez, de 81 anos, na fila do Mercal.

“Não há nada daqui, é tudo importado. Eu venho do campo e antes produzíamos comida, agora nada.”

Segundo Martínez, o governo é responsável pela crise. “Antes eu votava em Chávez, mas ele nos enganou. Dessa vez votei em Capriles”, diz, em voz baixa, para não ser ouvida.

Disponível em:

 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/05/130516_escassez_alimentos_venezuela_jp.shtml

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