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Eleições alemãs de 1933 transcorreram em clima de intimidação

Posted in Memória - Hoje na História by Emilia C. de Paula on 05/03/2013
Paul von Hindenburg: também presente na propaganda dos nazistas

Paul von Hindenburg: também presente na propaganda dos nazistas

No dia 5 março de 1933, o Reich alemão escolhia seu novo parlamento. Mas prisões arbitrárias e terror praticado pelos nazistas durante a campanha eleitoral fizeram do último pleito parcialmente democrático uma farsa.

Em fevereiro de 1933, toda a Alemanha se encontrava em campanha eleitoral. o povo estava convocado para definir, no dia 5 de março, a nova composição do Reichstag, o parlamento nacional. No entanto, apenas um único assunto dominava o debate político: o recente incêndio da sede do Reichstag e a suposta tentativa de golpe por parte dos comunistas.

O chanceler do Reich Adolf Hitler e outras lideranças nacional-socialistas exploraram esse tema em suas campanhas, atiçando propositalmente o temor de uma revolução comunista. Numa onda de terror nunca antes vista, Hitler e seus asseclas disseminavam o medo e o pânico por todo o país.

País em estado de exceção

No país reinava o estado de exceção político, desde o incêndio do Reichstag, em 27 de fevereiro de 1933. Seguranças altamente armados patrulhavam prédios públicos, a polícia procurava por suspeitos nos trens de passageiros. Nas ruas, soldados da tropa de ataque nazista SA caçavam os inimigos do regime, com a ajuda de policiais.

E achar inimigos era coisa fácil. Pois, desde que o presidente do Reich, Paul von Hindenburg, assinara o documento que ficou conhecido como “Decreto do Incêndio do Reichstag”, os direitos fundamentais garantidos pela Constituição estavam suspensos e nulos.

Os comunistas eram o principal alvo dos nacional-socialistas. O patrimônio do Partido Comunista da Alemanha (KPD) fora confiscado e os jornais comunistas sumariamente proibidos. Milhares de partidários do KPD, mas também social-democratas, foram presos ou obrigados a fugir para o exterior. “Aqui não tenho que exercer justiça, mas apenas que exterminar e erradicar”, afirmava Hermann Göring, então chefe da polícia prussiana.

Hitler em todos os lares

Ao mesmo tempo, os nazistas ativavam sua máquina de propaganda. O ministro Joseph Goebbels declarou o 5 de março, data das eleições, “Dia da Nação que Desperta”. Enquanto se atiçava o medo de um golpe comunista, Adolf Hitler era estilizado como salvador da pátria. Com grande sucesso: “É preciso apoiá-lo agora em sua causa, com todos os meios”, exortava em Hamburgo uma adepta do NSDAP, o partido nacional-socialista.

Os nazistas empregavam todos os meios modernos em sua campanha eleitoral. No rádio, no cinema ou por via aérea, Hitler era onipresente em todo o território do Reich. Em 4 de março, um dia antes da fatídica votação, ele proferiu um discurso final em Kaliningrado, Prússia Oriental.

Por sua vez, os adversários políticos, como os social-democratas, tinham sua campanha eleitoral dificultada com violência: membros da SA invadiam seus comícios e espancavam os participantes, enquanto a polícia assistia impassível. Redações dos jornais de oposição eram devastadas e destruídas. Esses atos de terror deixaram um saldo de 69 mortos.

O “popular” Hitler

No dia 5 de março de 1933, um domingo, hordas de alemães se deslocaram rumo às urnas. A participação nas eleições foi elevada, quase 89%. Hitler contava com uma vitória esmagadora, mas os alemães iriam decepcioná-lo: apenas 43,9% dos votos foram para o NSDAP, o que significava 288 dos 647 assentos do Reichstag.

Embora os nazistas tivessem obtido um crescimento de quase 11% em relação ao pleito anterior, também dessa vez o percentual atingido não bastava que governassem sozinhos. Além disso, apesar de todo o terror pré-eleições, o KPD saiu com 12,3% dos votos, e os social-democratas do SPD com admiráveis 18,3%.

No entanto, a oposição não conseguiu tirar das mãos dos nazistas o poder parlamentar. Junto com seus outros parceiros, os nazistas dispunham de maioria estável para governar. E Hitler ainda tinha a seu favor o fato de o partido ter sido eleito com votos de todas as classes e camadas sociais. O NSDAP se tornara um verdadeiro Volkspartei, um “partido do povo”. Grande parte dos antigos abstinentes haviam agora apoiado a legenda nazista.

Caráter puramente simbólico

Mas o resultado das últimas eleições do Reich alemão ainda meio livres, embora antecedidas por um terror sem precedentes, só teve significado simbólico: os mandatos dos deputados comunistas foram cassados, e o SPD viria a ser proibido pouco depois. Enquanto isso, o regime nazista ampliava sua política de terror, que em breve se estenderia também aos judeus.

Em seu diário, o então professor alemão de origem judaica Victor Klemperer descreveu com resignação o ocaso da moral e da liberdade dos alemães, que se dava praticamente sem qualquer resistência: “É surpreendente como tudo pode desmoronar tão rapidamente”.

Afinal de contas, no pleito do 5 de março, os alemães ainda haviam podido escolher entre diferentes facções políticas. Nas eleições seguintes, em novembro de 1933, só havia um único partido: o dos nazistas.

Autor: Marc von Lüpke-Schwarz (sv)

Revisão: Augusto Valente

Disponível em:

http://www.dw.de/elei%C3%A7%C3%B5es-alem%C3%A3s-de-1933-transcorreram-em-clima-de-intimida%C3%A7%C3%A3o/a-16647900

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