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Velhas carreiras, novas perspectivas

Posted in Américas, Social & Questões Culturais by Nejme Joma on 30/01/2011

SÃO PAULO –

A historiadora Zuleika Alvim, de 68 anos, não queria seguir o caminho mais tradicional da sua profissão: dar aulas. Preferiu contar um tipo diferente de história, a empresarial. Em1985, ela criou a Grifo Projetos Históricos e Empresariais, especializada no assunto. Hoje, Zuleika trabalha para grandes corporações que dão cada vez mais importância para esse tipo de trabalho e emprega 36 pessoas, a maioria historiadores que, como ela, buscavam novas formas de atuar na profissão.

Com o mercado de trabalho aquecido, o surgimento de novas tecnologias e a flexibilização nas formas de contratação, nichos de mercado em áreas mais tradicionais do conhecimento, como história, geografia e medicina, estão crescendo e abrindo espaço para profissionais dinâmicos e criativos. E esses segmentos oferecem vantagens, incluindo maior remuneração ou estabilidade.

A historiadora Beth Totini, de 53 anos, que deixou a carreira de professora para trabalhar com história empresarial, garante que esse mercado está cada vez mais aquecido. “Há cinco anos, percebo um aumento da valorização dessa área pelas organizações, principalmente por causa do surgimento de novos paradigmas como o da responsabilidade social”, diz. “As empresas perceberam que o conhecimento da própria história faz diferença na elaboração do planejamento estratégico.”

É o caso da Unilever, empresa que há dez anos mantêm um centro de memória em sua sede, em São Paulo, administrado pela Grifo Projetos Históricos e Empresariais, a empresa de Zuleika. Desde a criação do centro, a companhia conseguiu melhorar sua comunicação com os consumidores, reposicionar produtos no mercado e tomar uma série de decisões estratégicas. “Sem olhar para a história, perdemos a perspectiva para fazer novos lançamentos. Em 2008, nós conseguimos fazer um planejamento estratégico até 2012 porque tínhamos esse tipo de conhecimento”, diz o vice-presidente de assuntos corporativos da empresa, Luiz Carlos Dutra.

Além dos mapas. Quando o estudante Pedro David Albuquerque, de 24 anos, entrou na faculdade de geografia, acreditava que uma das melhores opções de carreira era a de professor universitário. No fim do segundo ano do curso, conseguiu um estágio em uma área que até então desconhecia, o geomarketing, técnica que utiliza a localização geográfica para analisar as melhores possibilidades de mercado para uma empresa. Há mais de dois anos na área, ele mudou de emprego, mas não de carreira. “Quando comecei a estudar geografia, diziam que eu tinha dois caminhos: ser professor ou trabalhar no mercado de engenharia com geoprocessamento. Com o tempo, vi que existiam outras possibilidades.”

O demógrafo Reinaldo Gregori, fundador da empresa de geomarketing Cognatis, diz que a profissão é promissora. “Com os avanços econômicos e o esgotamento dos mercados óbvios, esse tipo de estudo se torna cada vez mais necessário para as empresas. E a procura por profissionais do ramo só tende a aumentar.” No entanto, considera a disseminação desse tipo de conhecimento muito pequeno nas universidades. “Os cursos ainda só preparam o aluno para trabalhar na academia.”

Gestor

Há dez anos, o médico ginecologista Tony Piha trocou o jaleco por terno e gravata. Gerente de farmaeconomia da Astra Zeneca, ele dá suporte médico para a área de produtos, promove treinamentos para a equipe de vendas, estabelece protocolos clínicos para a descrição de fármacos e viaja para trabalhar também em unidades da empresa em outros países. A mudança ocorreu após o médico sofrer o calote de uma operadora de planos de saúde que quebrou. “Tive de acionar outras formas de renda. Foi quando encontrei uma colega que trabalhava como auditora de convênios médicos e me indicou para uma vaga”, diz ele, que passou ainda por uma seguradora de saúde antes de entrar na farmacêutica. “Descobri um outro lado da medicina e agora posso usufruir dos benefícios da contratação por meio da CLT.”

Para complementar sua formação, o médico cursou um MBA em gestão da saúde e percebeu que vários de seus colegas de profissão estão trocando as clínicas pelo escritório. “A gestão na área de saúde é um mercado promissor, porque a saúde no mundo inteiro está quebrada e as empresas precisam cada vez mais de profissionais que consigam fechar essa conta.”

O diretor de RH da Astra Zeneca, Miguel Monzu, conta que há campo para profissionais de medicina também em outras áreas, como as de relacionamento médico e pesquisa clínica. “O interessante é que vários médicos entram na empresa, se envolvem como trabalho e acabam migrando para outro departamento fora da área de saúde, como o marketing, por exemplo.”

Monzu recorre a head hunters para contratar profissionais, mas diz que é comum também receber indicações. O laboratório não exige experiência prévia na função, mas há habilidades essenciais para esse tipo de trabalho. “Ter facilidade de comunicação é muito importante, assim como Inglês fluente.Também preferimos que o candidato seja especialista em alguma área da medicina”, diz Monzu. “Depois de entrar em uma empresa, os médicos costumam fazer algum curso de especialização, o que não é exigido num processo seletivo, mas pode ser um ponto positivo a favor do candidato.”

A consultora de recursos humanos do Grupo DMRH, Naamisis Campos, diz que muitas carreiras têm apresentado novos nichos em decorrência do aquecimento do mercado de trabalho e da flexibilização das formas de contratação. “O profissional pode prestar variados tipos de serviços e não precisa necessariamente seguir carreira em uma empresa”, diz. E as companhias estão procurando quem tenha conhecimento multidisciplinar e seja capaz de identificar e suprir novas demandas.

“O profissional deve buscar novas tendências sempre.” Entre as mudanças percebidas pela consultora, estão a procura por trabalhadores de áreas tradicionalmente práticas, como professores de educação física, chefs de cozinha e pilotos de avião, com experiência na área administrativa e por pessoas com conhecimento em sustentabilidade. “As empresas não olham só para o técnico, elas procuram pessoas com fluência em outro idioma, conhecimento tecnológico e visão de negócio”, afirma Naamisis.

Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/not_52984.htm

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