Clipping de Relações Internacionais

Uma ”nova Dubai” em território iraquiano

Posted in Oriente Médio, Paz & Conflito by Nejme Joma on 26/12/2010

Iraque – Estadão – 26/12/2010.

Rica e isolada da violência que há 7 anos varre o Iraque, região semiautônoma do Curdistão vive rápido crescimento econômico.

Bazares e casas de chá apinhados de gente, ruas arborizadas, parques, belos jardins e fontes iluminadas fazem a vida em Erbil, capital da província semiautônoma do Curdistão iraquiano, parecer extraordinariamente distante das imagens de atentados e batalhas de rua que marcaram o Iraque desde a invasão americana, em 2003. A calmaria na cidade, onde vive cerca de 1 milhão de iraquianos, só é interrompida pelo barulho das escavadeiras, tratores e guindastes – sinais do rápido progresso do território nos últimos sete anos.

Estima-se que o Curdistão iraquiano cresça anualmente 7,3% mais do que o restante do Iraque. Em média, a renda per capita na região curda é 30% maior do que a das zonas árabes iraquianas.

E as últimas notícias parecem dar razão ao otimismo. Um recente acordo entre autoridades locais e o governo central iraquiano garante à região uma fatia de 17% da renda total das exportações de petróleo – além da reserva de 45 bilhões de barris de petróleo do Curdistão. A agricultura extensiva vem sendo retomada aos poucos e centenas de empresas estrangeiras decidiram investir na região, incluindo gigantes como Coca-Cola e ArcelorMittal.

A súbita onda de prosperidade rendeu ao Curdistão iraquiano um apelido: “a nova Dubai”. “Os negócios vão melhor aqui do que no Líbano”, explica Khaled Sherif, empresário iraquiano do ramo hoteleiro e farmacêutico que tem investimentos nos dois países.

Em quase todas as conversas, autoridades e mesmos diplomatas estrangeiros repetem o bordão da “nova Dubai”. Até um hotel de luxo com 29 andares ao estilo do Burj Al-Arab – edifício-símbolo da riqueza de Dubai – está em estágios finais de construção em Suleimaniya, a segunda maior cidade da região.

Um estádio moderno onde foi disputada a final do campeonato iraquiano de futebol contrasta com a cidade velha de Erbil. “Temos quatro times curdos na primeira divisão do campeonato. Desde 2007, vencemos todos os torneios”, diz Vian Elia, diretora do Ministério de Esportes, Cultura e Juventude do governo provincial.

A maior parte dos empresários que investem no Curdistão iraquiano é da Turquia e de países árabes. Tanto Erbil quanto Suleimaniya têm aeroportos pequenos, mas ultramodernos, ambos construídos com investimento turco.

Peshmergas. Por trás do crescimento do Curdistão, está a percepção de que a região conseguiu ficar imune à violência que castiga o Iraque desde 2003. Nesses sete anos, nenhum estrangeiro – jornalista, empresário ou soldado – foi morto na área controlada pela autoridade curda. Isso foi possível graças a uma extensa rede de bloqueios nas estradas que ligam o Curdistão às demais partes do país, bem como no entorno das principais cidades curdas.

A patrulha não fica a cargo do Exército iraquiano, mas dos chamados peshmergas, a força de segurança do governo curdo. A palavra significa literalmente “aqueles que enfrentam a morte” e os milicianos estão por toda parte.

O governo autônomo curdo gosta de enfatizar que a região é a porta de entrada “segura” para o Iraque. O adjetivo é repetido à exaustão por autoridades e vem estampado em panfletos que buscam atrair investimentos no exterior.

“A segurança tem de ser forte e constante, pois sabemos que existem organizações terroristas que gostariam de envolver o Curdistão na guerra que ocorre em Bagdá”, explica Gharib Sayeed, um oficial peshmerga de Erbil. Os constantes controles provocam atrasos intermináveis nas estradas curdas. “Ainda assim, é melhor um pouco de demora ao longo do caminho do que bombas e mortes em nossas cidades. A população entende isso e apoia nossos esforços para manter as coisas calmas por aqui.”

Mesmo assim, a guerra foi sentida na região. Em maio de 2007, em um dos mais sangrentos atentados, um carro-bomba matou 30 pessoas a 50 quilômetros de Erbil. Em setembro, uma criança foi morta quando um suicida lançou um ataque em uma zona residencial da capital. No mesmo dia em que o Estado visitava Suleimaniya, fontes oficiais revelaram que dois militantes ligados ao grupo radical Ansar al-Islam foram mortos tentando chegar à capital vindos da cidade de Mossul.

“É esse tipo de incidente que nos faz lembrar que estamos muito próximos de outras áreas de um país em guerra, apesar da sensação de segurança que temos por aqui”, diz Enver Civas, empresário turco que estava com mais três colegas no Curdistão para negociar o contrato de construção de escolas. “Mesmo assim, me sinto mais seguro quando venho realizar negócios aqui do que em muitas das cidades grandes que eu visito na Europa”, diz Civas.

No entanto, a autonomia do Curdistão em relação ao Iraque árabe não é nova. Após décadas de brutal perseguição perpetrada pelo governo de Saddam Hussein, com o fim da Guerra do Golfo, em 1991, a população local passou a ser protegida de Bagdá pela criação da Região Autônoma (RAC) e do Governo Regional do Curdistão, sob a zona de exclusão aérea mantida pelos EUA com apoio britânico.

Saddam impôs um bloqueio econômico interno até 2003 para minar os esforços econômicos e uma guerra civil foi travada pela disputa do poder político local entre os dois principais partidos curdos a partir de 1994. O Partido Democrático Curdo (KDP) liderado pelo clã Barzani – do atual presidente da RAC, Massoud Barzani – aliou-se a Bagdá e acabou firmando-se em Erbil e no norte do território.

A rival União Patriótica Curda, dominada pelo clã Talabani e encabeçada pelo atual presidente do Iraque, Jalal Talabani, acabou ficando restrita ao sudeste do Curdistão iraquiano e centrada na cidade de Suleimaniya. Em 1996, um acordo pôs fim à disputa e abriu caminho ao desenvolvimento ao destinar 13% da venda de petróleo iraquiano ao Curdistão.

O status de região semiautônoma foi aprofundado ainda mais após a invasão de 2003. A queda de Saddam deu formalmente autonomia política e legislativa aos curdos, que são responsáveis por sua própria segurança, infraestrutura, programas sociais, culturais, educacionais e de saúde, além de gerir sua economia e fronteiras internacionais.

Apesar do rápido desenvolvimento econômico e social, o Curdistão ainda enfrenta grandes desafios. O desemprego beira os 20% e há poucas perspectivas para os jovens recém-saídos das universidades. Além disso, clãs tradicionais determinam a divisão do poder e mesmo a ascensão social.

Disponível em: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101226/not_imp658264,0.php

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