Clipping de Relações Internacionais

Tragédia reabre guerra no clã Bhutto

Paquistão – Diário de Notícias – 09/08/2010

Quando chegou ao Reino Unido, na passada terça-feira, Asif Ali Zardari ia disposto a provar a David Cameron que o seu país não “promove o terrorismo”, como o acusara o primeiro-ministro britânico durante uma visita à Índia. Mas esta polémica rapidamente foi esquecida quando o Presidente paquistanês se encontrou no centro das críticas por continuar a viagem à Europa quando o seu país vive as piores cheias dos últimos 80 anos, que já fizeram mais de 1600 mortos.

Foi este afinal o assunto que marcou a visita do viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto ao país onde a mulher estudou e onde o filho, Bilawal, terminou agora a licenciatura em História em Oxford. Acusado de ignorar o sofrimento do povo enquanto está “de férias” em hotéis de cinco estrelas, Zardari confrontou-se desde a chegada a Londres com protestos por parte da comunidade paquistanesa no Reino Unido (mais de um milhão de pessoas).

A caminho do comício que devia encerrar a sua viagem ao Reino Unido, em Birmingham, centenas de manifestantes esperavam Zardari, empunhando cartazes a dizer: “Milhares de pessoas morrem, o Presidente está de férias” ou “Milhares de mortos, milhões de sem-abrigo, o que faz rir o Presidente?” O Chefe do Estado do Paquistão – aliado do Ocidente na luta contra o terrorismo, mas que tem sido acusado de não estar a fazer tudo para lutar contra os talibãs que se refugiaram na sua fronteira com o Afeganistão – foi ainda alvo de um sapato, lançado por um manifestante, tendo escapado ileso.

Mas no interior do centro de conferências, os 1700 apoiantes do Partido do Povo do Paquistão (PPP) não só entoaram gritos de “Vitória para Zardari”, como não escondiam a ansiedade para verem Bilawal Bhutto, o filho mais velho do Presidente e de Benazir (assassinada num atentado em Rawalpindi em Dezembro de 2007), que todos esperavam ver lançar ali a sua carreira política.

Mas Bilawal veio, entretanto, negar em comunicado a sua intenção de participar no comício. Nomeado pela mãe, em testamento, como seu sucessor político, o estudante de 21 anos preferiu participar, em Londres, na abertura de um centro de doações para as vítimas das cheias no Paquistão. Antes disso, Bilawal já viera defender o pai, garantindo que este estava a contribuir para recolher fundos a favor dos 15 milhões atingidos pelas cheias.

Tanto a viagem de Zardari ao Reino Unido, como o alegado lançamento da carreira política de Bilawal já haviam sido criticada por Fatima Bhutto, sobrinha de Benazir que vive actualmente em Carachi, no Paquistão. Num artigo publicado na revista Foreign Policy, a escritora garante que as cheias são “o Katrina de Zardari”, numa comparação com o furacão que em 2005 colocou o Presidente George W. Bush no centro das críticas nos EUA devido às falhas na resposta às vítimas. A filha de Murtaza Bhutto, irmão de Benazir morto em 1996 num confronto com a polícia, acusou Bilawal de se querer autoproclamar futuro líder paquistanês.

Apesar da guerra no clã Bhutto, a BBC aponta ainda uma outra razão para as críticas a Zardari, sobretudo nos media paquistaneses: a tensão entre a classe política e a poderosa hierarquia militar na luta pelo poder no Paquistão.

Disponível: http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1637102&seccao=%C1sia

Acesso em: 09/08/2010

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