Clipping de Relações Internacionais

Comentário: Estados Unidos e Israel devem lutar segundo um grande plano

Posted in Oriente Médio, Paz & Conflito by Nejme Joma on 31/03/2010

EUA – New York Times – 31/03/2010.

Por trás das últimas discussões entre Estados Unidos e Israel sobre acampamentos está um problema mais profundo e real: existem cinco elementos principais na equação israelenses-palestinos de hoje.

Dois deles – o primeiro-ministro palestino Salam Fayyad e a aliança do Irã, Hamas e Hezbollah – possuem estratégias claras.

Esses dois na verdade são opostos, mas um deles irá modelar as relações israelenses-palestinos nos próximos anos; de fato, seu momento decisivo está chegando.

Espero que Fayyad vença.

Seria bom para Israel, para os Estados Unidos e para os árabes moderados.

No entanto, esses três precisam de sua própria estratégia para fazer isso acontecer.

Fayyad é a nova força mais interessante do cenário político árabe.

Ex-economista do Banco Mundial, ele está buscando a estratégia exatamente oposta de Yasser Arafat.

Arafat sustentava uma mistura de violência e política; seu plano era primeiro ganhar reconhecimento internacional para um estado palestino e então construir suas instituições.

Fayyad defende o contrário – uma luta não-violenta, a construção de instituições transparentes e não corruptas, uma polícia eficaz e unidades paramilitares, que até o exército israelense afirma que estão fazendo um bom trabalho; e então, uma vez que tudo esteja funcionando, declarar um estado palestino na Cisjordânia até 2011.

A estratégia de Fayyad – e seu chefe, o presidente Mahmoud Abbas – está ganhando força e está em “conflito direto com a rede de resistência: Irã, Hezbollah e Hamas”, disse Gidi Grinstein, presidente do Reut Institute, um dos principais centros de pesquisa de política de Israel.

A estratégia do Irã, explica Grinstein, é simples: destruir Israel através de uma combinação de guerra assimétrica – como a guerra do Hezbollah do sul do Líbano e do Hamas de Gaza; retirar a legitimidade de Israel ao acusá-lo de crimes de guerra quando o país combate o Hamas e o Hezbollah, que lutam aninhados em civis; “religiosizar” o conflito, virando muçulmanos contra judeus, focando em símbolos como Jerusalém; e, finalmente, forçar Israel a “expandir o império além de sua capacidade”, isto é, manter Israel ocupando os 2,5 milhões de palestinos na Cisjordânia, que o Irã & Cia.

acreditam que levará à “implosão de Israel”.

Portanto, hoje o fayyadismo, que busca substituir a ocupação israelense da Cisjordânia por um estado palestino independente, é a maior ameaça à estratégia do Irã.

Então, a coisa mais inteligente a se fazer agora seria que os outros três elementos tivessem uma estratégia clara para apoiar o fayyadismo.

Ah, se fosse assim…

Desde que Israel ocupou a Cisjordânia e sua população palestina, em 1967, os israelenses têm enfrentado um dilema: Eles querem um estado judeu, um estado democrático e um estado em toda a terra de Israel (Israel mais Cisjordânia)? Neste mundo, eles só podem ter duas das três opções.

Israel pode ser um estado judeu e democrático, mas não se manter a Cisjordânia, pois os palestinos de lá mais todos os árabes israelenses vão acabar superando os judeus.

Israel pode ser um estado judeu e manter a Cisjordânia, mas nesse caso não pode ser democrático; os árabes serão a maioria.

Israel pode ser democrático e manter a Cisjordânia, mas então não seria judeu.

Tenho certeza de que o primeiro-ministro Bibi Netanyahu compreende isso, por isso aceitou o princípio de uma solução de dois estados.

Porém, seu governo é uma mistura impossível de Partido Trabalhista moderado e ideólogos religiosos e nacionalistas linha-dura que de fato acreditam que Israel não tem de escolher duas das três opções, mas pode ter todas as três se segurar firme.

Como resultado, o governo de Bibi não pode ignorar os Estados Unidos e Fayyad, mas também não pode se mexer de forma decisiva para ajudar.

O colunista Nahum Barnea, do jornal israelense Yediot Ahronot, comparou Netanyahu “a um desses velhinhos motoristas que ocupam duas faixas com medo de errar, deixando malucos os motoristas que andam atrás dele e causando acidentes.

Quando dá seta para a esquerda, vira à direita.

Quando dá seta para a direita, ele continua indo em frente”.

À maioria dos estados árabes pró-Estados Unidos falta visão e coragem, então isso permite à equipe de Obama apoiar o fayyadismo, que é uma grande ideia, mas enfrente enormes desafios estruturais.

Em 2006/2007, o sistema político palestino se arrebentou entre Gaza, controlada pelo Hamas, e uma Cisjordânia controlada pelo Fatah, liderada por Abbas e Fayyad.

Assim, hoje o parlamento palestino pode não ter a unidade ou legitimidade necessária para endossar qualquer acordo com Israel.

Portanto, os Estados Unidos devem descobrir como fazer acontecer um estado palestino na Cisjordânia ao lado de Israel neste contexto.

Isso terá de ocorrer em fases, e a primeira delas é estabelecer um estado palestino com “fronteiras provisórias” – cobrindo praticamente toda a Cisjordânia menos os atuais blocos de assentamentos israelenses – enquanto se posterga a questão dos refugiados, Jerusalém e fronteiras finais para uma segunda fase.

O presidente Barack Obama estava 100% certo em gritar com Israel em relação a sua expansão de assentamentos, o que mina as oportunidades inerentes neste momento.

Mas ele também precisa de sua própria estratégia clara para explorar as oportunidades inerentes deste momento – e isso até agora esteve ausente de sua equipe de relações exteriores.

Se os Estados Unidos irão combater com Israel – ou, melhor ainda, trabalhar com ele – o país deveria fazê-lo de acordo com uma grande estratégia americana que se acredita poder moldar um Oriente Médio mais estável.

© 2010 New York Times News Service

Disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/s/31032010/84/mundo-comentario-estados-unidos-israel-devem.html

Uma resposta

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  1. Junqueira J.C. said, on 01/04/2010 at 16:03

    Uma analise clara dos últimos fatos e acontecimentos que envolvem as partes, gostei , parabéns !


Comentários encerrados.

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