Clipping de Relações Internacionais

PLANALTO DESCARTA PARECER DA AERONÁUTICA SOBRE CAÇAS

Posted in Américas, Regiões, Segurança Nacional & Defesa by Rodrigo Felismino on 06/01/2010

O Estado de S. Paulo – 06/01/2010

LULA DEVE IGNORAR PARECER PRÓ-CAÇA SUECO E MANTER OPÇÃO POR RAFALE

Divulgação de relatório a favor de avião sueco provoca mal-estar no governo

Para presidente, compra dos 36 aviões é ‘política e estratégica’ para consolidar parceria entre Brasil e França

BRASÍLIA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende ignorar relatório do Comando da Aeronáutica que avaliou o caça Gripen NG, da empresa sueca Saab, como o melhor para a renovação da frota da Força Aérea Brasileira (FAB), informou um de seus mais próximos auxiliares. Lula já manifestou a preferência pelo caça francês Rafale e tem repetido que a decisão sobre a compra dos 36 aviões é “política e estratégica” para consolidar a parceria entre o Brasil e a França.

O vazamento do relatório do Comando da Aeronáutica para o jornal Folha de S. Paulo – com a avaliação ainda parcial das propostas para o projeto FX-2, de renovação da frota da FAB – irritou Lula e provocou mal-estar no governo. Auxiliares do presidente disseram que o documento já foi modificado e não faz um ranking das melhores propostas, apenas avalia tecnicamente itens como transferência de tecnologia e aspectos comerciais e logísticos. Nota do Comando da Aeronáutica informou ontem que o relatório ainda não foi enviado ao Ministério da Defesa.

A compra dos caças é mais um capítulo da crise do governo com os militares. Na véspera de Natal, os comandantes das três Forças e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ameaçaram se demitir em represália à criação da Comissão da Verdade, prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos, que abre brechas para a revisão da Lei de Anistia. Mas o impasse foi temporariamente contornado com a promessa de Lula de reexaminar os pontos de atrito.

A simpatia de setores da Aeronáutica pelo caça sueco já é velha conhecida do governo. Lula não queria, no entanto, que isso viesse a público. Afinal, dera o sim à compra dos Rafale antes mesmo de conhecer o relatório da Aeronáutica. Desde que anunciou sua preferência pelo caça francês, durante visita do presidente Nicolas Sarkozy ao Brasil, em setembro, Lula aguarda que a empresa Dassault reduza em 40% os custos de operação do Rafale. Naquela ocasião, Sarkozy chegou a garantir ao colega brasileiro que melhoraria substancialmente a proposta.

Lula tem demonstrado que não gosta de ser contrariado em decisões tomadas de antemão. Ao dar a entender que poderá ignorar o relatório da FAB, ele praticamente repete o que disse em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), que abriu a possibilidade de responsabilizá-lo, caso opte por não extraditar o ex-militante de esquerda Cesare Battisti. O italiano foi condenado à prisão perpétua em seu país, acusado de quatro assassinatos. Indagado sobre o caso, Lula reagiu: “Não me importa o que disse o STF. Ele teve a chance de fazer e fez. Eu não dei palpite. A decisão é minha. Até lá não tenho comentários a fazer.”

POLÊMICA

Três empresas competem para fornecer os 36 caças: além da Dassault e da Saab, a americana Boeing está no páreo com o F-18 Super Hornet. No relatório preliminar, o sueco Gripen NG ficou em primeiro lugar na avaliação técnica, seguido pelo Super Hornet. O Rafale, preferido por Lula e Jobim, obteve o terceiro e último lugar, pelo preço, considerado extremamente alto.

“O Lula só tem duas alternativas: ou mantém sua decisão política de comprar o Rafale ou não decide nada e empurra isso com a barriga, deixando o pepino para o próximo governo”, opinou o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Frente Parlamentar da Defesa Nacional.

Um dos argumentos usados pelos defensores do caça francês é de que não se pode comparar preços entre equipamentos diferentes. Alegam, por exemplo, que o sueco Gripen é monomotor e está em fase de projeto.

“Não se pode comprar equipamento militar como se fosse um objeto em uma prateleira de um shopping”, disse o deputado José Genoino (PT-SP). “Essa visão da Aeronáutica é equivocada e parcial. A discussão é de parceria estratégica com a França.” Para um assessor de Lula, “não dá para comparar equipamentos que existem com caças que estão no papel”.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, será o primeiro integrante do governo a enfrentar a reação de Sarkozy diante do relatório da Aeronáutica. O chanceler participará amanhã, em Paris, de um seminário que será aberto pelo presidente francês. O Itamaraty trabalhava ontem para acomodar um horário para o ministro na agenda reservada de Sarkozy.

Eugênia Lopes, Vera Rosa, Denise Chrispim Marin e Leonêncio Nossa

Disponível em: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/1/6/planalto-descarta-parecer-da-aeronautica-sobre-cacas. Acesso em 6/1/2010.

3 Respostas

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  1. Nico said, on 07/01/2010 at 0:01

    Lula pode até por uma coleira no Jobim, mas na FAB não. Ele que vá lamber sabão.

  2. Márcio - São Paulo/SP said, on 14/02/2010 at 1:38

    O Comando da FAB optou em seu “relatório técnico” pelo Gripen por ser o caça mais barato para comprar e principalmente para manter. A FAB sabe (pois já sentiu na própria carne) que no Brasil não existe política de defesa. Descontinuidades e cortes ou remanejamento orçamentário para as Forças Armadas são comuns e frequentes – e quase inevitavelmente, são previsíveis. Basta mudar o governo e as prioridades ou a transitória conjuntura econômica favorável para um quadro desfavorável e o estrago estará feito. Quem garante que os novos e ainda não comprados caças (seja o Gripen, o Rafale ou o Hornet) não ficarão em breve no chão por falta de recursos orçamentários para a FAB (como aliás, está ocorrendo com os velhos AF1 da Marinha)???? Assim, os oficiais da FAB estão pensando de forma pragmática: o Gripen é mais barato e portanto “mais garantido”, então pronto. Comparado com o F-18 Supre Hornet ou com o Rafale, o Gripem é realmente mais barato para a compra e também para manter. O caça suéco é realmente uma boa opção, mas para países que não tem uma área tão grande como o Brasil (mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados).
    Como um caça de tão baixa autonomia (como é o Gripen) poderia oferecer condições minimamente adequadas de defesa do vasto espaço aéreo brasileiro???? Seria necessário a compra de muitas unidades (uma centena, duas centenas, não sei) e colocá-los espalhados em diferentes grupos e bases pelo país afora para a defesa aérea minimamente eficaz. O custo de tal opção é altíssimo. O Gripen é inviável para um país do tamanho do Brasil em virtude de sua baixíssima autonomia. Como o “relatório técnico” da FAB não considerou este ponto crítico que é a baixa autonomia, portanto o pequeno raio de alcance do Gripen???? Só vejo uma resposta: a FAB não pretende garantir a defesa aérea efetiva com o Gripen em uma ampla área do espaço aéreo brasileiro – aliás, coisa que a FAB (não por culpa dela) nunca conseguiu fazer mesmo.
    Outro ponto fraco do Gripen: ele, assim como o Hornet, também tem aviônicos e sistema de armas norte-americanos. Se os yankes não fornecem equipamentos e armas modernas para os F-5 modernizados da FAB (modernizados com tecnologia israelense) por qual motivo forneceriam tais sistemas de armas e aviônicos modernos e avançados para os Gripen ou Hornet que a FAB venha adquirir???? É uma doce ilusão pensar que os norte-americanos fornecerão equipamentos de ponta para a FAB ou qualquer força aérea da América Latina.
    O Rafale apresenta problemas também: não é um sucesso de vendas (o Brasil comprando seria o primeiro além da própria França), é muito caro e tecnicamente complicado. Mas é mais sofisticado que os concorrentes Gripen e Hornet. A Dassault Aviation (fabricante) também é uma empresa que muitas vezes largou a FAB na mão com os antigos Mirage III. Os norte-americanos simplesmente são mais previsíveis que os franceses: já avisam antes que não fornecerão determinados equipamentos para o Gripen ou o Hornet e pronto. Mas os franceses são menos previsíveis e sua política externa é menos clara. Se o Brasil optar pelo Rafale quem garante que a França não fará o mesmo que fez com Israel nos anos 1970: suspender a venda de caças Mirage já pagos e interromper a transferência de tecnologia???? Este comportamento imprevisto e mesmo “pouco confiável” dos franceses, apesar de pouco provável (devido o quase desespero francês por não conseguir vender o Rafale a algum país) é possível. Durante a Guerra das Malvinas eles não entregaram aos britânicos os códigos fonte dos mísseis exocet argentinos???? Não só entregaram como também se não fosse a capacidade de alguns técnicos argentinos em decodoficar e desbloquear tais códigos, a Argentina não teria se quer conseguido lançar um único exocet contra os britânicos.
    Mas diante das opções oferecidas ao Brasil (F-18 Hornet, Gripen e Rafale), creio que o Rafale, apesar de ser uma aposta alta e incerta, é a melhor opção. Apostar no Gripen NG pode parecer mais prudente e confiável. Mas tal caça (Saab Gripen) não teria grande utilidade para um país com o espaço aéreo imenso como tem o Brasil.
    Outro ponto importante: tanto o Gripen como o Rafale como o F-18 em pouco tempo estarão definitivamente superados pelo F-22 Raptor norte-americano. É apenas uma questão de alguns poucos anos para o F-22 se torar totalmente operacional e equipar alguns esquadrões de caça da USAF.
    De qualquer forma o Brasil ainda estará um degrau abaixo. Mas acredito que o Rafale, diante das propostas oferecidas, seja a melhor opção, pois caso a parceria Brasil-França dê certo na área da transferência tecnológica para a construção do Rafale pela Embraer e mesmo no caso dos submarinos, o Brasil ganharia adquirindo novas tecnologias militares para a FAB e Marinha, além de também, para a indústria nacional. O Brasil poderia também ganhar um importante apoio francês em suas metas na política externa. A compra do Rafale poderia aproximar e estreitar as relações Brasil/França em um patamar nunca alcançado antes. Mas o risco é grande, a incerteza é maior e a aposta é alta. Com os norte-americanos e seus “sócios” suécos já sabemos o que não teremos. Com os franceses, não sabemos muito bem o que teremos.

    • Rodrigo Felismino said, on 15/02/2010 at 11:44

      Caro professor.
      Apenas um comentário à sua exposição: com bem destacou o professor Tullo Vigevani em seu artigo “Os militeres e a política externa brasileira: interesses e ideologia”, foi uma cooperação militar entre França e Brasil (Missão Militar Francesa), da década de 1920, que moldou a estrutura militar brasileira. Dessa cooperação nasceu uma doutrina militar que tinha como base base uma identidade entre o Estado nacional e a institucionalização da identidade do Exército, o que trouxe consequências para a nossa política nacional anos mais tarde.
      Essa parceria atual entre Brasil e França não se trata de uma inovação, mas sim de uma continuidade.


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