Clipping de Relações Internacionais

Um Plano Marshall para o meio ambiente

Posted in Américas, Meio-Ambiente, Regiões by anaclaudiagrotto on 13/09/2009

EUA – IPS – 11/09/09

Quando os líderes do mundo se reunirem para a conferência internacional sobre mudança climática no final deste mês na sede da Organização das Nações Unidas, as conversações estarão mais centradas na política do que nas finanças.

“Não são esperados novos compromissos financeiros durante a cúpula para apoiar os esforços nos países em desenvolvimento”, disse Janos Pasztor, diretor da Equipe de Apoio para a Mudança Climática da ONU. “Mas, espera-se que haja um novo contexto” para acordos sobre financiamento, acrescentou cauteloso.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o maior incentivador da cúpula, disse acreditar que mais de cem líderes mundiais participarão da reunião de um dia prevista para o próximo dia 22. “Espero que demonstrem sua liderança política, que desempenhem seu papel como dirigentes mundiais, enfrentando os desafios que requerem liderança mundial e solidariedade global”, afirmou Ban.

O Estudo Econômico e Social Mundial 2009, divulgado na semana passada pelas Nações Unidas, estima que serão necessários por ano entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões para enfrentar alguns dos problemas causados pela mudança climática, e que estarão na agenda da próxima conferência internacional sobre o tema que acontecerá no mês de dezembro na cidade de Copenhague.

No ano passado, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, revelou o “Mapa do Caminho para Copenhague”, que inclui uma proposta para arrecadar US$ 100 bilhões por ano para financiar medidas de mitigação e adaptação diante do aquecimento do planeta, especialmente nos países mais pobres que sofrem secas, inundações, desmatamento, aumento no nível do mar e contaminação. Entretanto, esses fundos, fornecidos principalmente por doadores ocidentais, não seriam suficientes para alcançar as metas traçadas pela ONU.

“Serão necessários milhares de milhões de dólares em financiamento público”, destacou Ban Ki-moon. “Deve haver mais dinheiro, não apenas para a ajuda oficial ao desenvolvimento em um novo pacote. Se podemos resgatar os bancos, sem dúvida podemos encontrar os fundos para proteger milhões, quando não milhares de milhões, de pessoas e seus meios de subsistência”, ressaltou.

Em entrevista à IPS, o chefe da Unidade de Desenvolvimento de Estratégias e Análises de Políticas do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Richard Kozul-Wright, disse que as questões de finanças devem ser parte integral do debate sobre mudança climática. “Creio que a cúpula pode ter um impacto muito positivo. O secretário-geral insiste na necessidade de uma visão, urgência e liderança sobre o tema da mudança climática”, destacou.

IPS- No atual contexto de crise financeira mundial, quais são as possibilidades de as nações ricas aumentarem seus fundos para combate à mudança climática?

Richard Kozul-Wrigh – Falando estritamente, as oportunidades nada têm a ver. Os governos aceitaram – nas reuniões anteriores sobre mudança climática em Kyoto (Japão) e Bali (Indonésia) – cumprir as metas adicionais de custos financeiros em seus esforços de mitigação e adaptação. Mais ainda, os países industrializados, incluindo agora os Estados Unidos e a Austrália, aceitam a evidência científica de que a atividade humana está por trás do já perigoso aumento das temperaturas mundiais, e que se as nações em desenvolvimento não seguirem seu exemplo, as consequências serão graves para todos.

A atividade foi localizada, predominantemente, nos países ricos. De fato, o desenvolvimento com base no carvão dessas nações está por trás tanto dos desafio climáticos quanto das grandes brechas de renda que caracterizam o panorama econômico mundial. A boa notícia é que seu êxito também implica que os países têm os recursos para vencer a mudança climática tanto em seus próprios territórios quanto nas nações em desenvolvimento.

IPS- Há novas fontes potenciais de financiamento?

RK- O Estudo Econômico e Social Mundial sugere vários mecanismos para mobilizar novos recursos com estes propósitos, incluindo o redirecionamento dos gastos do governo – como militares ou subsídios a serviços energéticos baseados no carvão – para atender as ameaças da mudança climática no país ou no exterior. Inclusive, uma das coisas que a crise financeira demonstrou é que, se existir vontade política, os governos com determinação podem rapidamente mobilizar fundos em grande escala na resposta a um golpe no sistema, até bilhões de dólares.

Um por cento do produto interno bruto mundial (entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões), que o Estudo sugere como cifra aproximada para enfrentar os desafios da mudança climática nas nações em desenvolvimento, é a quantia que os Estados Unidos comprometeram no Plano Marshall para ajudar a reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Naquela época, muitos nos Estados Unidos argumentaram que o país não tinha dinheiro ou que este seria gasto erradamente, mas, de fato, foi um fator importante não apenas para reconstruir a Europa (e derrotar o extremismo político), mas também para promover os interesses econômicos norte-americanos no exterior.

Nosso caso atual pode ser visto em termos semelhantes, pois apresenta um cenário em que tanto o Norte quanto o Sul ganhariam, e o exemplo dado no primeiro capitulo do estudo (da ONU) procura mostrar que um grande fluxo de investimento no nível que estamos sugerindo é consistente com um forte crescimento mundial, inclusive nos países industrializados.

IPS- O que deveria ter prioridade na luta contra a mudança climática: os esforços políticos ou os econômicos?

RK- No final das contas, é a continuação do crescimento sustentável o que importa para qualquer esforço financeiro desses países. De fato, diante da crise, a mudança na dinâmica de investimentos – passando dos especulativos aos mais produtivos no longo prazo – em serviços de energia renováveis, transporte, etc, é precisamente o que todos os países necessitam fazer para criar uma economia mundial mais estável e equilibrada.

Isto não significa que não é necessário esforço político dos líderes de nações avançadas para conseguir um financiamento em grande escala. Mas espera-se que, após persuadirem seus cidadãos sobre a necessidade de usar seu dinheiro para salvar comunidades de bancos da extinção, possam ser igualmente persuasivos para convencê-los de que outras comunidades – incluindo, possivelmente, toda a ração humana – não devem sofrer esse destino. IPS- Quanto confiança o senhor tem na proposta de criar um fundo mundial de energias limpas? Quais seriam os principais objetivos de um fundo com esse perfil?

RK- Obviamente, a necessidade de um fundo surge da lógica da importância de um grande empuxo (econômico) e do reconhecimento de que os mecanismos financeiros bilaterais e multilaterais existentes – desde o Plano Marshall – não foram projetados para proporcioná-lo.

Os países doadores começam a aceitar que a arquitetura de assistência internacional não funciona muito bem, em parte por estar extremamente fragmentada e politizada, e que o financiamento multilateral não conseguiu apoiar os ajustes necessários para um crescimento includente e sustentável nas nações em desenvolvimento. Isto poderia fornecer a base para uma franca e aberta discussão a respeito de a mesma arquitetura ter condições de funcionar efetivamente quando a mudança climática se acrescenta aos desafios do desenvolvimento já existentes. O enfoque de um fundo seria em investimentos de grande escala para expandir a capacidade dos serviços de energias renováveis. IPS/Envolverde

Disponível em: IPS

Acesso em: 13/09/09

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