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Polêmica sobre burca afeta debate político na França

Posted in Europa, Regiões, Social & Questões Culturais by Felipe Salatino on 01/09/2009

 

Nova Iorque -The New York Times – 01 /09/09.

A confusão da França quanto ao islamismo e aos cidadãos muçulmanos do país pode ser medida com base na feroz disputa política surgida aqui quanto à “proibição da burca”, já que a vestimenta em questão na verdade não é uma burca, mas o chamado nicab.

Uma burca é um manto que envolve o corpo por inteiro; em geral azul, ela inclui uma faixa rendilhada que fica posicionada diante dos olhos para permitir que a usuária enxergue. Vestimenta comum entre muitas mulheres afegãs, a burca raramente é vista na França, ao contrário do nicab, um longo manto em geral preto que deixa os olhos descobertos.

Ainda assim, um movimento contra seu uso iniciado pelo prefeito comunista de uma cidade perto de Lyon ganhou ímpeto ao ser encampado pelo partido de centro-direita que governa o país, o qual alega estar defendendo os valores franceses, e entre muitos militantes de esquerda, os quais alegam estar defendendo os direitos da mulher.

Uma comissão parlamentar estudará em breve se a burca – ou, em outras palavras, qualquer forma de manto que recubra a maior parte do rosto – deve ser proibida.

O debate é indicativo da profunda ambivalência quanto aos costumes sociais que prevalecem apenas entre uma pequena minoria dos muçulmanos franceses, e do medo que existe quanto a um possível ataque aos princípios que embasam a sociedade francesa: o direito dos cidadãos, a igualdade e a separação entre religião e Estado.

O desconforto da França para com a religião organizada data da revolução de 1789 e da proibição à Igreja Católica, e é agravado ainda mais nesse caso por se tratar de costumes estrangeiros e associados, na opinião dos ocidentais, à opressão das mulheres.

André Gerin, deputado pelo Partido Comunista e prefeito de Venissieux, uma cidade na periferia de Lyon que abriga muitos muçulmanos oriundos da África do Norte, deu início à confusão no final de junho, ao apresentar na Assembléia Nacional uma moção, co-assinada por 57 outros parlamentares, na qual pedia a criação de uma comissão legislativa para estudar o assunto.

“A burca é apenas a ponta do iceberg”, disse Gerin. “O islamismo é uma verdadeira ameaça contra nós”. Em carta ao governo, ele escreveu que “é hora de assumir uma posição quanto a essa questão que afeta milhares de cidadãos, preocupados ao se depararem com mulheres aprisionadas e totalmente veladas”.

Dias mais tarde, o presidente Nicolas Sarkozy declarou que “a burca não é bem-vinda no território da república francesa”. Ele não informou de que maneira isso funcionaria na prática, no entanto, e nem se pretendia ampliar leis já existentes que proíbem o uso de véus ou qualquer outro símbolo religioso nas escolas públicas do país.

Para Sarkozy, que defende a participação francesa na guerra do Afeganistão como um esforço de defesa dos direitos da mulher, “o problema da burca não é religioso”. Ele disse que “se trata de um problema da liberdade e dignidade das mulheres. É um símbolo de servidão e degradação”.

Existe uma forte suspeita de que Sarkozy, usualmente defensor da liberdade religiosa, esteja fazendo uma jogada política em meio a um período de insatisfação econômica e ansiedade social. Mas ele também parece desejar reprimir a expansão das formas mais radicais e puritanas de islamismo no território francês.

A imprensa francesa vem publicando editoriais e artigos de opinião acalorados, desenhos que mostram os diferentes tipos de véus islâmicos, e reportagens sobre piscinas públicas e o chamado “burquíni”, um traje de banho islâmico que cobre o corpo e os cabelos, mas não o rosto. As mulheres que usam o nicab, muitas das quais francesas convertidas ao islamismo, afirmam que escolheram livremente andar com o rosto coberto, depois do casamento. Outras afirmam solenemente que estigmatizar ou proibir o véu só fará com que mais mulheres o vistam como sinal de protesto.

No ano passado, Faiza Silmi, 33 anos, teve negado seu pedido de naturalização como cidadã francesa, em parte porque usa o nicab – o que representa uma decisão judicial sobre uma forma de vestimenta que ela usa em casa. Em entrevista ao jornal Le Monde, Silmi diz que escolheu usar o nicab depois de se casar, ainda que até mesmo sua mãe tenha considerado a decisão como “um exagero”.

“Não acreditem por um momento que sou submissa ao meu marido!”, ela afirmou. “Sou eu que cuido dos documentos e do dinheiro”. As paixões jamais foram tão intensas, e quando o serviço de inteligência interna do governo divulgou um relatório segundo o qual apenas 367 mulheres francesas usam o véu que recobre corpo e rosto, isso pouco pareceu afetar a discussão.

Para muitos muçulmanos franceses, a discussão é causa de embaraço e uma forma de incitação ao ódio racial e religioso. M’hammed Henniche é secretário da União de Associações Muçulmanas de Seine-Saint-Denis, uma federação de organizações não governamentais. Ele se declara francês acima de tudo, e está chocado.

“Tudo isso é uma grande confusão”, disse. “Eles estão falando do nicab, mas creio que optar pelo termo burca não é acidental. Escolheram uma palavra associada ao Afeganistão e que difunde uma imagem negativa e assustadora”.

“Na França, existem leis que forçam as mulheres a mostrar o rosto em público – na prefeitura, no banco”, acrescentou Henniche. “As mulheres que usam o nicab o tiram, quando necessário. Mas nas ruas, todo mundo deveria ser livre para usar a roupa que preferir. Essa história está sendo manipulada de maneira a estigmatizar uma comunidade”.

Acesso em: 01 de Setembro de 2009.

Disponível em:http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3952491-EI8142,00-Polemica+sobre+burca+afeta+debate+politico+na+Franca.html

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