Clipping de Relações Internacionais

Acordo com Rio Tinto mostra como China entrelaça negócios e política

Posted in Ásia & Oceania, Política & Política Externa, Regiões by Rodrigo Felismino on 16/04/2009

Valor Econômico – 16/04/2009

O principal realizador de negócios da China é agora uma estrela em ascensão no governo, o que pode ser um complicador para o maior investimento do país no exterior.

Poucos dias depois de assinar um contrato de US$ 19,5 bilhões para adquirir parte da mineradora anglo-australiana Rio Tinto, o presidente da estatal Aluminum Corp. of China, também conhecida como Chinalco, deixou seu cargo para participar da equipe de governo da China.

A entrada na política do “czar” do alumínio, Xiao Yaqing, ocorrida em fevereiro, desperta uma pergunta crucial sobre as gigantes estatais chinesas, agora que começam a entrar na arena global: elas são movidas pelo lucro ou estão tentando pôr em prática uma plataforma nacionalista do governo chinês?

Um exame do negócio com a Rio Tinto sugere que a resposta é: ambas as coisas, já que os negócios e a política se entrelaçam para a nova geração de executivos chineses com experiência internacional.

Ontem, a transação com a Chinalco foi o foco de exame atento dos acionistas na assembléia geral ordinária da Rio Tinto. O diretor-presidente, Tom Albanese, a defendeu. “Continuamos comprometidos em completar o negócio com a Chinalco, e nosso foco é continuar a navegar com sucesso o processo regulatório antes de submetê-lo ao voto dos acionistas”, afirmou.

Mas a obtenção da aprovação das autoridades pode ser dificultada pela batalha política que agora fermenta na Austrália a respeito das ligações do país com a China. Na discussão mais recente, a oposição acusou o primeiro-ministro Kevin Rudd, um ex-diplomata que trabalhou na China e é fluente em mandarim, de ser um “embaixador itinerante de Pequim”. Eles também atacaram o ministro da Defesa por não revelar que um empreendedor imobiliário australiano de origem chinesa pagou duas viagens dele à China quando era um congressista do partido de oposição.

O mundo empresarial da China está atraindo maior atenção agora que as companhias do país estão comprando ativos de mineração e petróleo pelo mundo todo. No ano passado a China anunciou aquisições no estrangeiro no valor total de US$ 52 bilhões, sendo dois terços em recursos naturais, segundo a Dealogic.

Este ano já foram assinados 65 negócios, totalizando US$ 23,2 bilhões, quase todos em recursos naturais, informa a Dealogic.

Banqueiros, advogados e diplomatas afirmam que os líderes chineses já deram indicações de que a China precisa garantir seus recursos naturais. “Há uma política bem clara de obter recursos”, diz um diplomata de um país rico.

As autoridades australianas devem tomar uma decisão sobre o negócio em meados de junho. Os reguladores estão examinando detalhadamente as relações entre a Chinalco e o governo chinês.

O complexo acordo daria à Chinalco uma participação de 18% na Rio Tinto, a terceira maior mineradora do mundo, que possui valiosas minas de cobre e minério de ferro na Austrália e em outras partes do mundo.

Há quatro anos, preocupações do Congresso americano quanto aos vínculos entre a empresa e o governo da China contribuíram para matar uma oferta de aquisição da Unocal Corp. feita pela petrolífera chinesa Cnooc Ltd.

A Austrália se beneficiou do dinheiro que investidores estrangeiros como os japoneses e os chineses injetaram para explorar seus ricos recursos naturais, visando à exportação. Mas nos últimos tempos a forte entrada de dinheiro chinês na Austrália gerou uma reação adversa no país, o que pode tornar mais difícil para o governo aprovar o negócio com a Chinalco, dizem pessoas que trabalham no setor.

No fim de março, a Austrália bloqueou a oferta feita pela China Minmetals Corp. para comprar integralmente a australiana OZ Minerals Ltd. por 2,6 bilhões de dólares australianos (US$ 1,9 bilhão), afirmando que uma das minas da empresa-alvo fica próxima de uma área militar reservada. A Minmetals apresentou uma nova oferta, visando a uma porção substancial dos ativos da OZ Minerals, e não mais o total da empresa, excluindo a mina em questão.

As conexões da Chinalco com o governo chinês são um argumento que une os australianos críticos à compra da participação na Rio Tinto. O acordo daria à Chinalco uma participação minoritária em algumas minas da Rio Tinto.

“O governo australiano jamais teria permissão de comprar uma mina na China”, declarou o senador Barnaby Joyce em comerciais de TV que atacam as recentes propostas de investimentos chineses no país. “Sendo assim, por que deveríamos permitir que o governo chinês compre e controle um ativo estratégico de importância crucial para o nosso país?”

Para a Rio Tinto, que está sobrecarregada de dívidas, o acordo oferece uma grande vantagem em uma época em que o crédito secou. A Rio Tinto obteria acesso a uma linha de crédito dos bancos chineses que chega a muitos bilhões de dólares.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China tem amplos poderes sobre os investimentos do país no estrangeiro. Se houver mais de uma empresa estatal interessada no mesmo ativo de outro país, elas precisam primeiro competir entre si numa espécie de concurso julgado pela CNDRC. Em geral apenas uma vencedora vai representar a China. Fica a cargo dos executivos mais ambiciosos propor grandes negócios, a fim de expandir suas empresas – e seu próprio status político.

Xiao, de 49 anos, demonstrou ser especialmente ambicioso neste aspecto e bem sintonizado com o objetivo do governo de transformar a Chinalco em um grupo de mineração global. Ele é diretor-geral e secretário do Partido Comunista na Chinalco desde 2004.

O Conselho Estatal da China, que é o gabinete de ministros do país, recusou vários pedidos para uma entrevista com Xiao.

Xiao promoveu a diversificação da Chinalco, segundo executivos da empresa e executivos de bancos.

Em 2004, a empresa venceu dez outras em uma proposta de aquisição de uma mina australiana que produz bauxita, a matéria-prima do alumínio. O investimento de 3 bilhões de dólares australianos (US$ 2,2 bilhões) foi o maior já feito pela China na Austrália. A Rio Tinto, que possuía uma mina nas adjacências, entrou em conversações com a Chinalco sobre a possibilidade de compartilhar a infraestrutura.

Em maio de 2007, a Chinalco fechou acordo para investir em uma fundição siderúrgica, em uma joint venture com a Arábia Saudita; em junho daquele ano, gastou US$ 860 milhões para comprar a mineradora canadense de cobre Peru Copper Inc.

Ao contrário de muitos executivos chineses, Xiao cultivou uma forte presença pública, e seu destaque na cena política foi crescendo. Depois do acordo com a Peru Copper, ele foi nomeado representante alternativo do poderoso Comitê Central do Partido Comunista.

Em novembro de 2007, a BHP Billiton Ltd., a maior mineradora do mundo, fez uma proposta hostil de compra da Rio Tinto. A aquisição uniria a segunda e a terceira maiores produtoras mundiais de minério de ferro, a principal matéria-prima do aço de que a China necessita para suas fábricas, carros e arranha-céus.

O governo chinês, preocupado com o excessivo poder de fixar preços que estaria nas mãos de uma mineradora gigante, convocou às pressas reuniões com várias grandes empresas estatais, segundo fontes a par do assunto.

A Rio Tinto estava procurando alguma empresa que lhe permitisse escapar da oferta, segundo um banqueiro que trabalhou nas negociações. Xiao, que já havia tido conversas anteriores com a Rio Tinto sobre a mina de bauxita australiana, decidiu acumular uma grande quantidade de ações da Rio Tinto. Tal investimento tinha o potencial de cumprir o objetivo do governo de impedir o negócio com a BHP, e incentivar os esforços da Chinalco de se diversificar, estendendo-se além da China e do setor do alumínio.

Shai Oster e Rick Carew, The Wall Street Journal, de Pequim

Disponível em: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2009/4/16/acordo-com-rio-tinto-mostra-como-china-entrelaca-negocios-e-politica.

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