Clipping de Relações Internacionais

À sombra das armas

Posted in Ásia & Oceania, Paz & Conflito, Regiões by Rodrigo Felismino on 04/04/2009

Correio Braziliense – 03/04/2009

Coreia do Norte promete “golpear de modo inclemente” alvos japoneses, caso Tóquio tente interceptar o lançamento de seu suposto satélite. Washington pede cautela e brasileiros em Seul falam ao Correio

Os tambores que ecoam na Península Coreana são um chamamento à guerra. “Se o Japão interceptar imprudentemente nosso satélite pacífico, nosso Exército Popular vai impor, de modo inclemente, golpes letais não só contra os meios de interceptação já mobilizados, mas contra alvos importantes”, alertou ontem o comando militar de Pyongyang, citado pela Agência Central de Notícias Coreana, órgão oficial de imprensa da Coreia do Norte. Desta vez, a retórica belicosa passou para a ação: às vésperas de lançar um suposto satélite de comunicações, o regime comunista deslocou caças MiG-23 para a região da plataforma de lançamento Musudan-ri, no litoral norte-coreano. O primeiro-ministro japonês, Taro Aso, declarou que o foguete “inimigo” sobrevoará o Japão amanhã. Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Robert Wood, afirmou que seu país “não quer ver esse lançamento ocorrer”. Apesar de não indicar uma posição favorável à interceptação do projétil, o Pentágono determinou o deslocamento de destróieres para a região.

Sob a alegação de que o lançamento constitui uma violação da resolução 1.718 do Conselho de Segurança, os Estados Unidos admitem retaliar com um pedido na ONU por rígidas sanções contra Pyongyang. No entanto, existe um consenso na comunidade internacional de que China e Rússia – parceiras econômicas da Coreia do Norte – usarão seu poder de veto para impedir a punição. Yukio Takasu, embaixador do Japão no organismo, revelou que convocará uma reunião de emergência do Conselho para discutir uma resposta ao regime de Kim Jong-il. O medo é de que as armas se antecipem à diplomacia.

“Uma guerra seria devastadora. Dezenas de milhares de coreanos morreriam em curto espaço de tempo”, disse ao Correio John Feffer, co-diretor do Instituto para Estudos Políticos (em Washington) e autor de O futuro das relações entre EUA e coreanos. “Ao menos 20 milhões de pessoas vivem na área de Seul e estão ao alcance da artilharia norte-coreana.”

Longe de casa

O mineiro Jair Lage de Siqueira Neto, de 27 anos, se encaixa nesse perfil. Morando há um ano e meio na capital sul-coreana, ele contou, por telefone, que não existe alarde entre a população. “Não sabemos se a imprensa é que não divulga a verdade, a fim de evitar desespero”, comentou. “Para dizer a verdade, mesmo que ocorra algo, a Coreia do Norte seria liquidada. Kim Jong-il daria um tiro no pé”, disse o biólogo, que viveu por 18 anos em Goiânia.

Desde dezembro de 2007, o paraense Alberto Mello, de 25 anos, trabalha como cozinheiro no restaurante Copacabana, em Seul. Nos últimos dias, amigos brasileiros o demoveram da ideia de voltar para Belém. “As pessoas estão supertranquilas por aqui. A Coreia do Norte sempre aproveita a época do treinamento militar conjunto entre Coreia do Sul e EUA para fazer o povo daqui ficar com medo”, explicou. Coisa que ele mesmo sentiu duas semanas atrás. “A cidade parou. Os semáforos foram desligados, os metrôs e ônibus deixaram de funcionar. A polícia simulava uma guerra.”

P.J. Crowley, analista do Centro para o Progresso Americano, duvida que a retórica resvale para as vias de fato. “Kim Jong-il é irresponsável, mas não suicida”, admitiu. O historiador chinês Yong Chen, da Universidade da Califórnia – Irvine, concorda e afirma que o ditador norte-coreano está isolado. “Mas eu não gosto da análise psicológica de Kim Jong-il que prevalece na mídia ocidental, mostrando-o como um psicopata insano e imprevisível. Muito do que ele quer é irritar o Ocidente para obter vantagens“, aposta.

misseis_intercontinentais

1953 – A Guerra da Coreia, iniciada em 1950, termina com saldo de 2 milhões de mortos. Armistício consagra a divisão entre a Coreia do Norte (comunista) e a do Sul (pró-ocidental).

1994 – Meses depois da morte do fundador, Kim Il-sung, o filho e sucessor, Kim Jong-il, aceita suspender o programa nuclear em troca de fornecimento de combustível e alimentos pelos EUA, Japão e Coreia do Sul.

2006 – Em outubro, depois de quase uma década de idas e vindas nas negociações nucleares, o regime de Pyongyang anuncia ter testado uma bomba atômica.

Entrevista – Andy Harp
“O teste empurrará as tensões até o limite”

Arquivo pessoal

andy-harpEle já serviu na Coreia do Sul, Europa, América Central e Golfo Pérsico. Viveu os bastidores do Pentágono e, entre 1999 e 2001, atuou como líder da Equipe de Ação em Crise do Comando Central dos Fuzileiros Navais. Sua missão nesse cargo era monitorar o que ocorria dentro do território norte-coreano. Também participou, por quatro vezes, do Ulchi-Freedom Guardian, um treinamento militar conjunto dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Em entrevista ao Correio, por e-mail, o norte-americano Andy Harp – coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e autor do livro O trovão do Norte (Bancroft Press, 2007) – fez uma previsão aterradora para o caso de um possível confronto militar na Península Coreana.

Como o senhor vê o aumento de tensões no Leste da Ásia?
As Forças Armadas norte-coreanas têm o quarto maior exército do mundo. A artilharia norte-coreana está posicionada a 60km de Seul, capital de 12 milhões de habitantes. Tóquio está a menos de 960km da costa norte-coreana. A Coreia do Norte se prepara para lançar um míssil intercontinental que tem o potencial de atingir o oeste dos EUA. A tecnologia militar norte-coreana nunca foi uma ameaça como agora. Se funcionar, o míssil Taepodong 2 poderá alcançar mais de 3.200km e levar uma ogiva de 390kg a 997kg. Há poucos confrontos no mundo com uma magnitude dessas. Além disso, a Coreia do Norte terá a capacidade de alcançar vários satélites em órbita. O principal risco é de que as tensões aumentem instantaneamente. O teste com o míssil empurrará as tensões ao limite.

No caso de um conflito, qual seria o impacto para a região do Extremo Oriente?
Um conflito militar na Península Coreana imediatamente resultaria na perda de centenas de milhares, senão milhões de vidas, e o deslocamento de milhões de pessoas. Um sexto da economia mundial seria devastado pela guerra. A Coreia do Norte está armada até os dentes. Ela tem mais de 8.200 bunkers, milhares de peças de artilharia, mísseis de curto alcance e 35 submarinos. Acredita-se que ela tenha processado 30,8kg de plutônio, suficientes para fabricar de quatro a seis bombas nucleares.

Mas Pyongyang teria condições de provocar baixas significativas ao Japão e à Coreia do Sul?
A Coreia do Norte certamente tem a capacidade de infligir danos catastróficos à Coreia do Sul e, em certo grau, ao Japão. A nação de 23 milhões de habitantes gastou nas últimas décadas cerca de 24% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em arsenal. Ainda que os Estados Unidos se sentissem na obrigação de defender a Coreia do Sul, o conflito poderia escalar tão rapidamente que as perdas excederiam ainda no primeiro dia as ocorridas no Iraque e no Afeganistão. A única esperança é que a liderança da Coreia do Norte saiba que isso seria um evento de destruição mútua.

Por que a Coreia tem agravado tanto sua retórica?
A Coreia do Norte sustenta que o teste com o míssil é um esforço legítimo para lançar seu próprio sistema de satélites e que nenhuma nação deve se privar desse direito. A maior parte dos analistas é cética sobre isso. Em primeiro lugar, a Coreia do Norte tem sido um dos maiores fornecedores de armas do mundo. O sistema de mísseis iraniano é similar ao Taepodong e os dois países têm cooperado no desenvolvimento de armas. A Coreia do Norte precisa de dinheiro e a venda de suas armas é uma das melhores maneiras de se obtê-lo. Um teste de míssil bem-sucedido de Pyongyang a ajudaria a vender seu foguete a outros países. Em segundo lugar, a Coreia do Norte sabe que os EUA estão envolvidos em duas guerras e que o mundo enfrenta uma profunda recessão.

Rodrigo Craveiro

Disponível em: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2009/4/3/a-sombra-das-armas.

Comentários desativados em À sombra das armas

%d blogueiros gostam disto: